Teeth

Confesso, quando vi pela primeira vez a sinopse do filme Teeth – Vagina Dentada, achei bizarro demais, assim como qualquer outra pessoa. A história de uma menina que tem dentes na vagina é algo tão absurdo e ridículo, ainda mais misturado com terror, não dá pra esperar nada menos do que uma bomba. Logo de cara ignorei, achei essa premissa fraca demais e já pensei que o filme seria mais um exploitation barato para mostrar nudez e violência, ou seja, mais um filme trash. Mesmo gostando de filmes trash, eu tenho consciência de que é um gênero muito instável e que qualquer filme é um tiro no escuro. Porém, as diferentes opiniões sobre o filme (o velho caso do ame ou odeie) e o fato de aparecer em algumas listas de recomendações de terror me fez ceder e assistir o filme.

E para minha surpresa, o que encontrei foi bem diferente do que esperava. Sem esquecer que se trata de um filme de terror, com sangue e um desenvolvimento bem raso de alguns personagens, é curioso que esse filme tenha uma mensagem tão forte.

O filme conta a história de Dawn (interpretada por Jess Weixler), uma palestrante cristã, que prega pela castidade. o filme já abre com um de seus discursos. A jovem fala com convicção, enquanto a câmera foca em seu anel de castidade. É um começo que até parece forçado, mas que traça um paralelo com o que a protagonista terá que lidar.

Bom, para falar sobre esse filme, terei que avisar sobre spoilers, já que a crítica do filme me obriga a entregar pontos importantes da trama. Caso alguém já queira assistir, já fique avisado que o filme se trata de um filme de terror, então espere ver sangue, mutilações (acho que já dá pra imaginar de qual tipo) e uma história não tão bem construída.

A primeira “vítima” é Tobey (Hale Appleman), que aparece logo após a palestra de Dawn, em uma cena quase cômica, de filmes românticos, Tobey também usa um anel de castidade. Depois de assumir que está apaixonada pelo garoto, Dawn aceita ir com ele para uma cachoeira, onde os dois se beijam pela primeira vez. Ele tenta algo além do beijo, mas Dawn recusa, então Tobey passa a abusar de Dawn enquanto ela repetidamente diz não, inclusive, a protagonista deixa ainda mais claro, ao dizer “Eu estou dizendo ‘Não!’“.

É uma cena bem tensa e triste, que é cortada pelo choque dos dois quando Tobey vê o sangue no meio de suas pernas e percebe a amputação. A cena é da mais bizarra (ainda mais pelo close no membro decepado) e o menino acaba afundando na água.

Depois do choque e do sumiço do estuprador, Dawn passa a questionar até o seu comportamento, se sente envergonhada e culpada. Vemos Dawn fazendo uma nova palestra e dessa vez seu comportamento é bem diferente, ela sente que está traindo os seus ideias, seu discurso se torna robótico e sem alma. Ela inclusive chega a jogar seu anel de castidade fora, como se sentisse “impura“.

Dawn então vai ao médico, porque acha que tem algo estranho com seu corpo e ainda por cima sofre abuso do médico. Mesmo com a protagonista demonstrando desconforto e dor, o médico não pára e vemos ainda que a intenção era de abuso, ao mostrar que o médico fez o “exame” sem luvas. Mais uma vez temos um ataque e o médico perde os dedos da mão.

Dawn então procura em livros de anatomia e na internet sobre o seu caso. É interessante mostrar como uma adolescente como ela vê pela primeira vez como uma vagina deveria ser. Isso mostra a falta de educação sexual nas escolas e como essa questão do conhecimento do corpo (tanto para homens quanto para mulheres) ainda é um tabu.

Dawn também lê sobre o mito da “Vagina Dentada“, uma lenda que faz uma analogia com o medo que os homens do corpo das mulheres, da sua falta de conhecimento e da impotência perante uma mulher decidida, o que é em resumo o argumento do filme. Parece com um pouco de exposição gratuita, mas é interessante ter essa parte na trama.

Depois de ver sua mãe no hospital por negligência de seu irmão, Dawn vai ao encontro de Ryan (Ashley Springer), que também gostava dela e ele se mostra muito mais compreensivo. Então vemos pela primeira vez Dawn fazer sexo sem que haja uma amputação. Confesso que para um momento que deveria ser tão marcante, o filme peca muito e se transforma em um humor involuntário. Talvez essa seja a maior falha do filme e apesar de não estar tão presente, tira o foco do real problema, da falta de educação sexual e da cultura do estupro.

Depois dessa cena o filme perde um pouco a mão. Até vemos alguns argumentos importantes, como quando Dawn descobre que Ryan se fez de bom moço para transar com ela e por vontade própria, pela primeira vez, usa sua vagina para amputar mais um pênis (mais uma vez a cena é uma comédia involuntária).

Depois vemos a protagonista assumindo seu corpo, perdendo a vergonha e usando como arma contra os homens que tentam abusar dela. Novamente, é uma boa premissa, mas que é executada de forma tão bizarra, que se torna uma comédia involuntária.

No fim das contas, é sempre bom se lembrar que o filme se trata de um terror trash, quase um terrir, porém com uma premissa boa e com algumas ideias muito bem executadas. Vale a pena conhecer o filme pela premissa, mas não é recomendado para quem não gosta desse tipo de filme, pois apesar das ideias, o filme trata tudo de maneira muito rasa.

Acho que pra quem esperava algo muito mais simples, foi uma bela surpresa e ao mesmo tempo uma decepção. Devo admitir que o filme teve um saldo positivo pra mim, pois é difícil um filme abordar esses assuntos, principalmente um filme que tinha tudo pra dar errado.

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